Mudanças no boxe olímpico

Artigo publicado originalmente na coluna semanal no Jornal de Brasília 

O boxe já viveu momentos melhores. Os grandes combates tinham o poder de chamar a atenção do mundo. O esporte perdeu o glamour com o tempo. Muito por culpa dos diferentes “donos” que o esporte possui. Sempre existiu dois tipos de pugilistas: o profissional, dos grandes lutadores como Michael Taison, e o amador, dos atletas que disputam os Jogos Olímpicos. A separação sempre foi confusa.

Agora, parece que o jogo virou. A AIBA (Associação Internacional de Boxe) agiu para tornar o esporte mais atrativo, ao menos nas olimpíadas. A entidade anunciou na última semana que os capacetes, utilizados pelos pugilistas nos Jogos Olímpicos, serão abolidos nos combates masculinos já no Rio de Janeiro, daqui a cinco meses. Isso não acontece desde a edição dos Jogos de Los Angeles, em 1984. A AIBA garantiu que realizou estudos que comprovam que a segurança dos atletas não corre risco, apontando que o número de cortes caiu com a abolição dos capacetes.

A outra novidade é mais impactante. Os boxeadores profissionais poderão subir ao ringue olímpico. As mudanças têm o objetivo de tornar o boxe mais atrativo para o grande público. Segundo o presidente da AIBA, Ching-Kuo Wu, a permissão de profissionais no ringue olímpico será votada no mês de junho. Depois, todos os profissionais que desejam competir no Rio 2016 poderão disputar o pré-olímpico mundial, em Baku, no Azerbaijão.

As medidas geraram polêmicas. A ala mais conservadora do esporte se posicionou contra as mudanças. O jornalista Eduardo Ohata, do UOL, entrevistou o americano George Foreman, ex-campeão mundial e ex-campeão olímpico, sobre as novidades. Ele não poupou críticas as mudanças. “Os Jogos Olímpicos têm a ver com honra, não com dinheiro. Profissionalismo quer dizer ‘por dinheiro’. Quando fui campeão olímpico, lutei pela honra, não por dólares ou centavos. Ao abrir [a Olimpíada] para profissionais, tudo passa a ser em função do dinheiro”, disse Foreman ao jornalista brasileiro.

Convenhamos, atualmente é difícil encontrar um pugilista olímpico amador. A palavra amador não cabe mais para se referir aos atletas que disputam as modalidades olímpicas. A competitividade é alta e a dedicação é cada vez mais intensa e integral da parte dos atletas. Se não for assim, pugilista não terá chance alguma nos combates.

A permissão de profissionais não vai alterar a delegação brasileira nas olimpíadas. A lista de pugilistas nacionais está praticamente fechada. A Confederação Brasileira de Boxe (CBBoxe) definiu os nomes das seis vagas que o país tem direito. Adriana Araújo na categoria leve, Patrick Lourenço no mosca ligeiro, Julião Neto no mosca, Robenilson Jesus no galo, Joedison Chocolate no meio-médio ligeiro, Michel Borges no meio-pesado e o Robson Conceição no leve.

O único pugilista profissional que terá oportunidade na delegação brasileira será o Esquiva Falcão, nos meios médios. Ele foi medalhista de prata nos Jogos Olímpicos de Londres. Se der certo, será um grande reforço. O titular era o Myke Carvalho, que caminhava para a quinta olimpíada, mas quebrou o osso do antebraço no último mês. Toda mudança que busca evolução tem que ser bem aceita. Esperamos.

Mudanças no boxe olímpico

X-Games Brasil, uma ótima recordação

X Games Brasil 2013

O Facebook me lembrou que há três anos eu vivi uma das experiências mais legais da minha carreira profissional. Em 2013, cobri a única edição brasileira dos X-Games, que foi disputada em Foz do Iguaçu. Falo do evento completo, com tudo que temos direito, igualzinho a dos EUA.

Foram quatro dias de evento, de 18 a 21 de abril. A ESPN, dona da marca global dos X-Games, montou uma mega estrutura em frente ao Centro de Convenções da cidade. Todos os equipamentos foram levados pelos gringos.

Por si só a competição é diferenciada. Os Jogos Olímpicos dos Esportes Radiciais contam com shows de bandas de rock depois  de cada dia de evento. O clima é muito diferente, descontraído.

Eu vi, por exemplo, os atletas circulando no meio do público depois das provas. O clima descontraído segue também para a sala das coletivas de imprensa.  Como tive a oportunidade de trabalhar nas maiores competições esportivas de alto rendimento, os X-Games são, sem dúvidas, o evento mais legal.

X-Games Brasil, uma ótima recordação

Mais perto das fontes

É muito fácil fazer jornalismo atualmente. Sei que não é novidade para ninguém. Mas, na última semana parei para pensar nas transformações. Está muito mais fácil apurar e entrar em contato com qualquer pessoa no mundo ao toque de um celular.

Na última semana fiz duas entrevistas usando WhatsApp, por exemplo. Apurei as informações e consegui os números dos entrevistados.  Detalhe, as pessoas estavam na Europa.  Mandei as primeiras perguntas e, em seguida, comecei o diálogo com o entrevistado.

O Twitter é outra ferramenta que gosto muito para encontrar pessoas para as minhas matérias. As #hashtags certas no mecanismo de busca da rede social são uma ferramenta poderosa para os jornalistas.

Encontrar as pessoas certas para contar uma história faz parte do processo de produção de qualquer matéria jornalística. Ferramentas não faltam para conectar jornalistas e as fontes.

Mais perto das fontes

Machismo, mulher objeto e a ‘musalização’ do esporte

Texto publicado originalmente no HuffPost Brasil. 

O carnaval 2016 foi marcado por uma forte campanha pelo respeito às mulheres. Momento oportuno, principalmente durante a festa popular conhecida pelos excessos praticados pelos homens e desrespeito às moças.

É claro que existe uma cultura machista no Brasil. Sei que é complicado generalizar, mas a nossa história não nega. Até o esporte não está imune a essa tradição social e cultural. Vejamos: quando se aproxima uma grande competição esportiva, a imprensa sempre elege uma ou algumas musas.

O fenômeno pode ser chamado de musalização do esporte. Funciona assim: os atributos físicos das atletas se sobressaem às performances esportivas. Recordes em quadras e pistas são minimizados por beleza e curvas.

Uma atleta trabalha exaustivamente durante quatro anos para representar bem o país e fazer história durante os Jogos Olímpicos. Perde fins de semanas, deixa de festejar com os amigos, faz uma dieta rigorosa, passa a ganhar reconhecimento internacional e consegue, enfim, figurar entre as dez melhores do mundo. Quando chega o momento de brilhar, a imprensa fala apenas de seu corpo, físico e beleza.

Não é nada pessoal, garanto. É somente um dos sintomas da musalização. Nos Jogos Rio 2016 conheceremos a musa do vôlei, musa dos saltos ornamentais, musa do taekwondo, musa do judô, musa do atletismo, musa do futebol, etc. Teremos também as musas de alguns países – conheceremos a musa da Rússia, dos Estados Unidos, da China, da Itália, etc.

Não é de hoje que o noticiário esportivo trata diferentemente atletas masculinos e femininos. Talvez a culpa seja nossa, dos leitores. Clicamos nas notícias e damos audiência para esse tipo de conteúdo.

Ingrid Oliveira, 19 anos, sabe bem como funciona esse tipo de exposição. Antes de começar os Jogos Pan-Americanos de Toronto, no Canadá, ela postou uma foto no Instagram do alto da plataforma de saltos ornamentais de maiô. A imagem foi postada nos principais portais de notícias do Brasil, repercutiu e a jovem sofreu uma enxurrada de comentários maldosos do público masculino.

Quando começou o evento, Ingrid Oliveira errou no quarto salto na classificatória da plataforma de 10m. Tirou nota zero e deixou aos prantos a piscina do centro aquático. Na ocasião, a equipe técnica tentou minimizar o ocorrido e distanciar do fato da grande exposição.

Muitas pessoas podem pensar, “o que é bonito tem que se mostrar”. Concordo, mas, no esporte, o corpo é um instrumento de trabalho e não podemos tratá-lo como um objeto, somente para preencher as páginas de fofocas.

Machismo, mulher objeto e a ‘musalização’ do esporte

Esporte e SnapChat

A onda da vez é o Snapchat, aplicativo de mensagens que se autodestroem em segundos. Depois de fazer sucesso entre os jovens, principalmente no compartilhamento de fotos “íntimas”, o aplicativo ganhou maturidade, adeptos e virou opção para quem gosta de esporte. Com o olhar voltado para os torcedores, o aplicativo ganha espaço ao ampliar a experiência vivida pelos os fãs de basquete, futebol ou baseball.

O SnapChat ainda não é tão utilizado no Brasil como os concorrentes Facebook, Twitter ou Instagram. Muitos dos usuários são adolescentes. No momento em que as publicações compartilhadas no Instagram e no Facebook estão cada vez mais produzidas, a espontaneidade das imagens é o diferencial dessa rede.

Imagine você sentir a experiência das finais dos playoffs da NBA, reações de diversos torcedores, ver os atletas no clima antes das partidas, a chegada ao vestiário e a festa nas ruas. A experiência única, com as fotos e vídeos espontâneos, nunca será vista pelas lentes nas telas da televisão.

Além da troca de mensagens entre os amigos, o diferencial do Snapchat é o “Our Story”: evento ao vivo que reúne os snaps produzidos pelas pessoas em um mesmo espaço geográfico, seja em estádios, praias, festivais de músicas. Os arquivos podem ser vistos por todos os usuários inúmeras vezes por 24 horas.

 

A primeira experiência em eventos esportivos foi durante a Copa do Mundo de Futebol no ano passado, aqui no Brasil. Cada postagem é criada de acordo com a competição e as histórias agregadas proporcionam a imersão em várias ópticas. O aplicativo seleciona e distribui imediatamente os melhores snaps para todos que usam o aplicativo em forma de uma história coesa. As histórias permanecerão para os usuários se sentirem como se estivessem dentro do evento esportivo.

Recentemente, os usuários experimentaram o clima da etapa brasileira do Mundial de surf, disputada no Rio de Janeiro, e das partidas de baseball da MLS e os playoffs da NBA.

O Snapchat pretende ir além. A empresa está correndo atrás das grandes emissoras de televisão dos Estados Unidos e das ligas esportivas para garantir também os direitos de transmissões ao vivo de eventos esportivo. Tudo a um toque no celular. Com a tacada, o aplicativo pretende apagar, definitivamente, a má fama de aplicativo de adolescentes danados.

A empresa tem grandes ambições de se transformar em uma plataforma de mídia móvel dominante. Com as transmissões ao vivo, o caminho está próximo. Com o esporte, muitos especialistas de novas mídias acreditam que o Snapchat está prestes a se tornar mais do que um rede social.


 A espontaneidade tem os seus riscos. O recente ato de racismo protagonizado pelos atletas da Seleção Brasileira de ginástica foi postado na conta de Arthur Nory no Snapchat. A autodestruição das publicações não garante que atos como a dos ginastas passem ilesos.

A NBA e a Major League Soccer aprenderam rápido como utilizar o aplicativo para criar um vínculo pessoal com os fãs. Atletas e times utilizam o aplicativo para se conectar com os fãs de maneira original.

Entre as ações originais, um jogador de cada time da liga de futebol, por exemplo, ficou responsável, por um dia, por atualizar o perfil da Major League, registrando todo o seu dia. Outra ação foi os jogadores enviarem autógrafos personalizados para os fãs por meio da rede.

Outro recurso do Snapchat é o Discover. A emprensa se aproximou de grandes empresas de mídia, como a CNN, ESPN, National Geographic e Yahoo! News para oferecer aos usuários conteúdos de mídia e entretenimento diretamente do aplicativo.

Dicas:

Para quem ainda não se aventurou nas postagens no Snapchat, segue uma lista de equipes da NBA com perfis na rede:

Conferência Leste

Boston Celtics — Celtics
Brooklyn Nets — NBANets
Knicks — NYKnicks
76ers — Sixers

Central
Chicago Bulls — ChicagoBulls
Cleveland Cavaliers — Cavs
Milwaukee Bucks — BucksDotCom

Southeast
Atlanta Hawks — HawksSnaps
Charlotte Hornets — Hornets
Washington Wizards — WashWizards

Conferência Oeste

Northwest
Denver Nuggets — Nuggets
Minnesota Timberwolves — TimberwolvesMN
Portland Trailblazers — TrailBlazers

Pacific
Golden State Warriors — Warriors
Los Angeles Clippers — Clippers
Los Angeles Lakers — LakersSnaps
Phoenix Suns — PhoenixSuns
Sacramento Kings — Kings — SacramentoProud

Southwest
Dallas Mavericks — Mavs
Houston Rockets — houstonrockets
Memphis Grizzlies — GrizzliesNBA
New Orleans Pelicans — PelicansNBA
San Antonio Spurs — OfficialSpurs

Então, você também pode me seguir no snapchat: @nenobarros

Esporte e SnapChat

Cobertura machista do futebol feminino

Existe uma nítida insatisfação dos fãs de futebol feminino em relação à cobertura da imprensa brasileira. Motivos não faltam. Ontem, por exemplo, começou oficialmente o Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino 2016. Poucos veículos noticiaram. Os que fizeram, publicaram as matérias escondidas dentro dos portais.

Outra queixa é em relação a abordagem das notícias. No geral, procurando “musas” e ressaltando os atributos físicos das jogadoras. Veja o post da página Planeta Futebol Feminino no Facebook.

futebol femininocomentários futebol feminino

Cobertura machista do futebol feminino

Abraçando os refugiados

Os Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio de Janeiro entrarão para a história. Ao menos pela contribuição que o evento deixará aos refugiados. Vemos todos os dias na imprensa os dramas vividos por eles. Segundo as Nações Unidas (ONU), são mais 60 milhões de pessoas que foram obrigadas a fugir das próprias casas para buscar uma vida em paz em outro país nos últimos anos.

refugiados rio 2016

O mundo esportivo não está alheio ao que está acontecendo. Uma nadadora síria, que mora na Alemanha, um judoca congolês, que vive no Brasil, e uma atleta iraniana do taekwondo, acolhida pela Bélgica, são refugiados. Eles foram de alguma maneira forçados a deixar seus países na busca de paz. Esses três atletas foram os primeiros identificados pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) com chances de conquistar vaga no Rio 2016.

Durante a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, realizada no último mês de outubro, em Nova York, o presidente do COI, Thomas Bach, se comprometeu a acolher os atletas de alto rendimento que se encontrem na condição de refugiados. Assim, eles poderão competir nos Jogos Rio 2016 sob a bandeira do COI.

“Os Jogos Olímpicos são o ponto alto da tolerância, quando todos os países se reúnem para uma competição pacífica, convivendo em harmonia, sem discriminação, trocando experiências e emoções, mostrando respeito por vitórias e derrotas. O esporte é a chave para a paz e a tolerância”, disse, na ocasião.

Neste fim de semana, a iraniana Raheleh Asemani, 26 anos, conquistou a classificação para as Olimpíadas nos combates de taekwondo. Paralelamente, a atleta espera a naturalização belga. Raheleh é a primeira refugiada a garantir vaga no Rio 2016.

Atualmente, o Brasil conta com 8,5 mil refugiados. Dois atletas do Congo, país que foi palco de uma das guerras que mais mataram desde a Segunda Guerra Mundial, moram hoje no Rio de Janeiro. Uma reportagem do jornal britânico The Guardian contou a história de Popole Misenga e Yolande Mabika. Eles vivem no Rio de Janeiro há dois anos. Os judocas entraram o Brasil para disputar o Campeonato Mundial de Judô 2013 e ficaram no país para fugir da guerra.

“A ONU e o COI estão unidos quanto aos ideais de tolerância, solidariedade e paz. O esporte é uma maneira única de colocar a trégua em termos práticos”, discursou Thomas Bach.

De ação concreta, o comitê olímpico criou em 2015 um fundo de recursos para ajudar os programas de refugiados. Segundo informações divulgadas pelas agências de notícias, mais de 15 comitês olímpicos nacionais já fizeram uso de parte desses recursos.

O esporte tem papel social na humanidade, muito mais do que disputas, medalhas e dinheiro. Os Jogos do Rio mostrarão isso.

Abraçando os refugiados